sexta-feira, 27 de maio de 2016

BRUMAS





Olhei para meus pés afundados na areia gelada. O que eu estaria fazendo ali àquela hora? A minha realidade caminhava paralela à realidade temporal. Era como se minha consciência vibrasse em outra sintonia, muito distante dessa orla que me abraça. As ondas se chocavam contra um rochedo próximo e jogavam sua espuma para o céu estrelado. A lua enorme, branca disparava seu ardor contra a humanidade, fazia todos invejarem sua beleza – uma noiva prestes a dizer o tão esperado sim. A praia de Copacabana então me pertencia. O morro da Urca me encarava, e austero e imponente, se erguia tomando conta dos ares do Rio. Uma sensibilidade se dilatava e eu sentia aflorar por cada poro do meu corpo, cheguei até aqui sem saber o que queria ou esperava da vida. Eu ficaria ali pra sempre, nesse contato íntimo com a cidade que preenchia cada vazio da minha alma esburacada. Contra as ondas eu enxergava cada rosto que eu tive, cada disfarce que eu usei para me proteger, pra me esconder – de quê? Cada memória aparecia e imediatamente ia embora com a fumaça do meu cigarro. Se espalhavam e sumiam com a brisa que o oceano arrotava no continente. Meus pés, assim como meu corpo não me pertenciam, eram somente uma lembrança de quem eu sou, ou era… quem sabe do que eu fui, ou me tornei? Não sei. Do meu lado, pousada e descasada, havia uma garrafa de líquido vermelho aguado. Beber era uma distração, uma das poucas distrações que eu tinha, de alguém que caiu do trem e não conseguiu mais embarcar. Alguém rolava pela vida com seus sonhos enfiados no bolso, o canto preso na garganta. Eu subia aos palcos, mas antes do ato acabar eu já não voltava mais. Não conseguia terminar o show. A plateia já havia saído e os aplausos não me eram dignos. Eu me tornara um artista de alma pequena, me apresentando pra ninguém, tendo que conviver com os nós que tomavam o corpo. Me sentia tão vazio feito uma xícara de café borrada de fundo negro. Eu era apenas um rascunho inacabado contra esse fundo de vidro que me engolia, regurgitava e vomitava nas areias brancas do Rio. Sentia que me perdia a cada segundo, caminhava, ensaiava passos coreografados e num tombo desastrado me esfacelava contra o linóleo do tempo. Um caminho de pedras pontudas que eu percorria descalço, cada fragmento cortando fundo a sola dos pés, um ferimento que me dava consciência de que vivia e precisava passar por isso também. De alguma forma eu precisava aprender a morrer, alguém que me ensinasse uma técnica que não fosse falha, que no segundo derradeiro se concretizasse e se apossasse de mim. O tempo era um correligionário que me traía, que buscava me afogar nas suas águas rasas, que no segundo oportuno entrava em cena e me derrubava. Me cobria com seu manto e juntos volitávamos sobre meus escombros, sobre os cacos que restavam de mim. O vidro de que eu era efeito se partia ao menor contato. Vivia sempre com minhas janelas consertadas, coladas, embora, não raro, com vidraças faltando. Milhares de buracos preenchiam o fundo que me servia de superfície. Um dente cariado que apodrecia dia a dia, aquele que não resta solução a não ser a extração. Nada me envolvia, nada me preenchia, nada me servia… exceto essa areia branca, essas gotas de brisa, esse vento que acariciava minhas feridas, que lambia o pus esverdeado que escorria de mim. Eu passava invisível a tudo e a todos. Só fazia de conta, vivia de modo expressionista abstrato. Um monte de tinta espalhado aleatoriamente num pedaço de pano. Algo que vivia da subjetividade e que no fundo esperava uma recompensa. Mas o que, meu Deus, o quê? Não me achava em meio às necessidades urgentes que eu tinha. Eu tentava, mas perdia o voo no dia seguinte. Cansado, eu dormia, tardes intensas de sono profundo, manhãs desconhecidas e noites que acabavam tão rápidas; madrugadas que acompanhavam na peregrinação da vida, sem um altar para se chegar e me jogar aos pés de Deus. Um oratório que fosse, um rosário que captasse minha respiração e me entregasse à arte de viver. Nada. Apenas o vazio negro contra uma escuridão roxa de neon. E neste vazio eu vagava de olhos vendados, procurando uma saída, beijando os postes e dando de cara com as paredes da ingratidão, da rejeição. Mas esse Rio, ah, esse Rio, terra mística, sagrada, misteriosa, de algum lugar havia de me surpreender. O céu pintado de prata me acenava e sussurrava em meu ouvido que um desses becos iria me surpreender. Desenterro meus pés da areia, nesse momento uma onda chega até mim e me lambe os dedos, apanho a garrafa, bebo o restante do líquido e a deixo no lugar que estava. Continuo andando em direção ao mar, a água gelada me toma. Olho para trás e vejo, onde eu estava sentado, um mancha de pus seca e amarelada. Continuo minha caminhada. A água agora vai me sarar. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

UM CÉU DE TEMPESTADES





Acordei num susto. Ouvia o vento que rebentava contra as janelas, balançando os vidros e chacoalhando as venezianas. Um assobio percorria toda a casa e lambia meus ouvidos, seduzindo-me. Meu coração pulsava e por um momento achei que pudesse sair pelo peito, transpassar a barreira dos tecidos e cair sangrento sobre meu colo. O quarto, pouco mobiliado, estava completamente escuro, uma penumbra que se entrometia até no lugar mais íntimo de mim. Os trovões entoavam sua melodia deprimente e o ambiente era iluminado aos poucos por frenéticos relâmpagos que não sabiam dar trégua. A casa, de madeira nativa e muito antiga, bailava conforme o fandango que era tocado pelo vento, tudo rangia. O pequeno lampião, eu sabia, estava no bidê do ladinho da cama, mas qualquer esforço para alcançá-lo seria inútil, pois eu não tinha noção alguma do espaço em que me achava. A perplexidade daquele sonho me roubara a paz e me deixara completamente aturdido. Os relâmpagos alumiavam, e de longe eu avistava as coxilhas que cercavam a estância. São Pedro deveria estar furioso, e montado em seu bagual, gineteava o céu do Rio Grande, inconformado com a Revolução que bombardeava a querência. Que baita tormenta! Uma peleia entre o céu e o inferno. A coberta fina se enleava em meu corpo e parecia que se tornava uma segunda pele – o suor me consumia. Desvencilhei-me da coberta e me sentei. Meus pés úmidos tocaram as táboas do assoalho. Um calafrio me subiu pela espinha e terminou na nuca. Eu sabia que algo não estava de acordo. E esse algo era eu. Aquelas visões me perseguiam há muito e eu não sabia mais o que fazer. Me pus em pé e logo procurei o lampião. Saí para o corredor, a casa estava em completo silêncio, só se ouvia o trotear das almas reclusas que passeavam por ali. A chuva continuava sem trégua, volta e meia os relâmpagos alumiavam toda a casa. Cheguei ao pé da escada. Desci. As cortinas brancas da sala estavam abertas, podia mirar tudo que acontecia lá fora pelos vidros transparentes das janelas. Sentei-me na poltrona de couro. Campeei no aparador ao lado, onde repousava um vaso com um ramo de Brinco de Princesa, a flor do Rio Grande, os cigarros de palha que meu pai guardava numa pequena caixa de madeira. Prendi nos lábios, risquei o fósforo e tragueei. A fumaça preencheu meu ventre sedento. Mas e aquela presença que me atormentava e aquele frio estranho que me gelava as tripas? De onde vinha? Não sabia dizer. Àquela hora da madrugada a casa se parecia com um jazigo, escuro e frio – um santuário da morte. A velha Bibiana Cambará sempre alertava: “Noite de vento, noite de mortos”. Essa frase ficava matutando na minha mente e qualquer rangido que se ouvisse era motivo de desespero. Era uma perturbação sem tamanho. Eu sabia que o problema era comigo, ou melhor era eu mesmo. Eu tinha meus medos interiores e não sabia como lidar com isso, a vida corria atrás de mim e eu me escondia feito diabo que foge da cruz. No começo eu queria demais, exigia demais e se não fosse do meu jeito, tudo desandava. Hoje não. Hoje sou vítima do tempo, sou refém das circunstâncias que a vida ingrata impõe. Hoje estou à mercê de um tempo que não anda, de um relógio que não trabalha, de uma peça que não se encaixa, de uma vida que se esvai. Hoje eu sou menos que a poeira lançada pelo vento e que se gruda nas casas das estâncias, feito brasa no lombo da rês. Hoje eu não sou nem o resquício do que fui, me transformei dia após dia num covarde que pretende se esconder da vida do que encará-la, domá-la, encilhá-la e vivê-la. São tantas peleias que hora ou outra a gente fraqueja. Um homem morre quando seu coração deixa de bater, ou quando deixa de amar, o que é quase a mesma coisa. Sombras estranhas vinham acompanhadas com os relâmpagos, a fumaça do palheiro se projetava na parede e criava bocas que repetiam: “Noite de vento, noite dos mortos”. Era a boca da velha Bibiana que lançava uma das profecias mais velhas do Rio Grande. Uma ventania pesada, agora forçava as portas. Vozes permaneciam a soar em minha mente: Noite de mortos. Mortos. Almas. Penadas. O que tu és? O que estás fazendo com a tua vida? Viver é agora. Viver é hoje. Erga a cabeça. Peleie. Tua terra precisa de ti. Vais querer morrer sem deixar um legado? Morrer como um indigente na guerra? Um covarde que deserta na primeira batalha? Cadê a vergonha, o brio na cara? Uma confusão se instalava em minha cabeça e esta parecia que explodia. Os trovões rebentavam o céu. Os relâmpagos clareavam os arredores da estância. Saí porta fora, já não sabia mais o que fazer com as indecisões e inconformidades que a vida me impunha. Tomei toda a chuva no lombo; as gotas, grossas e geladas, abriam chagas na minha pele. Desatei a correr, recebendo no peito toda a violência do céu. Corri pelos campos enxargados tendo como companhia a sinfonia da tormenta, meu coração parecia que vinha na goela. Corri o máximo que pude até chegar no alto de uma coxilha. Sentei-me embaixo do velho angico. O relâmpago alumiou o céu. Avistei minha casa. Um jazigo no meio do nada. Almas encarceradas na fronteira do Rio Grande. Um coração alado encarcerado no corpo de um fracassado. Olhos que não mereciam a beleza e a virtude desta terra. Um homem que nem se fez homem, que lá no seu interior ainda é um menino. Covarde, medroso e que precisa ser protegido, amado. Um menino que tem medo de mostrar o seu lado frágil, que não pode ser fraco e a vida sempre exigiu isso dele, um menino que não conhece a palavra conformidade. Um menino que tem o coração grande e sonhador, no corpo de um homem que sabe-se lá Deus, se um dia conseguirá atender os desejos de sua alma. Um menino-homem que numa noite de tormenta entendeu que não precisa necessariamente morrer para estar morto! Silêncio. A chuva caia sobre o chão do Rio Grande. Fechei os olhos, me fechei e adormeci debaixo daquele angico marejado pelo aguaceiro. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

REFÉM DA CIRCUNSTÂNCIA





Vazio. Tento dar vazão às ideias, porém, não consigo; é sempre mais forte do que eu, muito maior. Eu tento resistir, mas me engloba, me toma, me lambe, me preenche. Eu tento fugir ou mesmo me desvencilhar, mas me é impossível. Apertado me afoga e como a maioria das drogas me dopa. Preso e sem enxergar a saída acabo cedendo e não atinando mais nada. Todas as tentativas são frustradas, nem o papel me é suficiente, as palavras não expressam mais a proporção que esse imenso buraco tomou. Compreender não me compete há tempos. Minha sanidade fica comprometida e meus dias se arrastam feito grilhões – pesados, úmidos e enferrujados. Verdadeiro elos corrompidos pelo tempo, pela vida. Elos que não fazem sentido, uniões impedidas, desfeitas, mal seladas, cenas de cotidianos que estão somente na imaginação. O lado direito do cérebro completamente inchado, intumescido feito ferida tomada de pus. Uma alegria roubada na infância, perdida há anos nos resquícios do tempo e que hoje habita os recônditos da lembrança. Uma existência que foge do controle, dias fugazes, incompletos e que levam de mim a juventude que um dia imaginei possuir. Existir é uma escolha que não nos compete, é feita por duas outras pessoas, que muitas vezes nem imaginam o que sente quem geraram. A vida sempre se apresenta em encruzilhadas e fatalmente sempre escolho os caminhos mais tortuosos, os mais sofridos e aqueles que me exigem uma espera que corrói, que machuca e incita. Incita pensamentos, dilacera e mata a pouco a pouco. Cada espera é uma forma lenta de morrer, e aos poucos, a vida é consumida pela paciência e pela esperança que nada promete, só judia e amarga. Vício do destino que impõe sua vontade, que me carrega no colo e nos dias mais doloridos, passeia no inferno. Viver dói. Viver assim dói, e essa dor, a da alma, não há medicamento que cure. Tudo passa a ser um processo lento e dolorido e as pessoas de alma pequena desistem na metade do caminho. Encurtam sua trajetória, pois qualquer justificativa jamais será plausível. Encontram o escuro permanente e remoem suas dores, mastigam sua tristeza e vomitam sua bile amarga e verde. Querem libertar de si o corpo que não lhe pertence, como se estivesse preso em alguém. Querem voltar ao princípio, uma alma livre e sem compromisso com as inquisições da vida. Realidade deturpada, pesadelos reais, dia após dia – um cérebro aberto, um aborto espontâneo, um filete de sangue pelo nariz e empoçado no queixo. Moscas que se aproveitam da ocasião e que chegam sem aviso. Cara coberta. Nem assim a vida faz sentido, nem quando interage com o meio que a cerca. Me pergunto, qual é o propósito de tudo isso? Fico achando resposta pra essa indagação, mas não encontro. Muitas mãos se estendem em minha direção, tento alcançar uma, mas no meio do caminho desisto. Ela jamais poderia me ajudar. Me recolho no nada e tento esconder minha face do escuro. As lágrimas não descem, elas sequer existem, pois não há propósito. Um cansaço me rende e perco a noção do tempo espaço. Minha consciência se desmancha e desagua num buraco sem fim. Compreender é impossível. Luzes emanam de uma direção que não sei precisar. Me rendo à incerteza e caio de boca no chão. Sinto os milhares de pedaços de dentes quebrados perfurando a língua. Meus ouvidos se fecham e uma chuva gelada despenca sobre mim e lava meu corpo inerte. Uma faixa de sangue escorre, levada pela água. Meu corpo já não mais me pertence. Alguém me abraça por trás e me levanta. Já não sou mais de ninguém. A chuva fere meu rosto, agride o farrapo que sou. Uma melodia insiste e chega. Um cheiro doce e enjoativo bate em cheio contra meu rosto. Pétalas de jasmim esmagadas são enfiadas em meu nariz. Um tufo de algodão sela o encontro. Uma língua explora minha boca e me afogo. Tento me mexer, mas é inevitável. Uma bola de fumaça entra pela minha garganta e preenche meus pulmões. Um torpor me consome. A vida não faz sentido. Viver tampouco. Antes de tudo virar cinza, lembro de uma pequena alegria da infância. Saudades.  

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

ENCONTRO COM A SUBJETIVIDADE

Tela: O ovo cósmico - Salvador Dalí




O menino sentou-se sob o escuro do seu quarto. Divagava sobre sua vida, seus medos, sua fantasia. Os dias passavam arrastados, o tempo era como se não andasse. No escuro ele mesclava suas angústias contra o breu. O suor escorria sobre sua testa e descia perdendo-se sobre a barba. Intimamente criava uma expectativa abstrata, sem nem ao certo saber de onde vinha. Sim, as coisas haviam melhorado, bem, pelo menos em alguns pontos. As noites já não eram mais as mesmas de outrora. Ali naquele quarto vivera os piores efeitos que a vida lhe impusera. Tal qual um pássaro ferido pelo mais pontiagudo dos espinhos, se refugiou no seu ninho e esperou que a vida respondesse suas orações. O tempo, seu amigo de duas faces, foi cicatrizando a ferida e hoje ela não passa de um resquício – amarelo, protuberante, sadio – mas, que ao menor contato pode romper-se novamente. O menino deita, o escuro o toma num abraço envolvente, e memórias passam a rondar seus pensamentos. Com um gesto automático espanta aquelas lembranças, pois as que mais lhe importam são as dos últimos dias. Essas eles quer guardar num canto muito especial de seu ser. Viver, ultimamente tem sido bom. É como ficar por anos sem ver a luz do sol e de repente enxergar a beleza que está à volta. Um fio de vida renasce, a canção volta a tocar. Abruptamente levanta-se, acende a luz, abre o armário que está poucos passos e procura dentre todos os seus discos, um em especial. A voz do poeta rasga os alto-falantes e tinge de azul a freqüência de suas lembranças... “Eu quero a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida. Nós na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva”..., uma imagem ronda-lhe a memória, congela-se e paira vibrando no ar. Lembrança boa. Fragmentos de felicidade. Pequenas porções ilusão. A voz rouca contra o cenário desta estação propaga-se no espaço e leva o menino para outra dimensão. Um encontro com a subjetividade, uma sinfonia dos deuses, uma pintura de Dalí. O homem-menino queria ficar ali, para sempre congelado na intenção de esquecer que um dia a vida o quis como prisioneiro do pior dos cativeiros. Hoje a liberdade lhe sorria, a vida lhe sorria. Era Deus lhe dando outra chance, o convidando a viver novamente. Uma explosão de cometas adoça o ar, milhares de partículas coloridas vêm de encontro ao rosto do menino... Uma única imagem se desfragmenta em milhares de pedaços. Aos poucos uma embriagadora sensação lhe acomete, porém, antes de adormecer se permite ouvir os últimos versos da canção: “Ser teu pão, ser tua comida. Todo amor que houver nessa vida e algum remédio que me dê alegria...”. Um sorriso torto brota de algum lugar recôndito da alma do menino. A escuridão torna a aparecer.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

INTUMESCÊNCIA (ID INTUMESCIDO)

       
Tela:
Artista: Brian Demers.



Os minutos passam voando. A tarde está ensolarada, um vento gostoso rebenta contra as janelas e descabela a planta que fica do lado da minha cama. O dia parece bom. Quem não parece sou eu. Já estava na segunda garrafa de vodka, estava bebendo desde a madrugada. A quem possa interessar, beber tanto assim, não é uma boa escolha devido ao estado deplorável que lhe é imposto horas depois. Falo isso também, pelo fato de estar encarando por horas a roda de vômito amarelado que está sob o carpete, bem ali, no lado direito da cama. Surpreendo-me novamente mirando aquela nojeira. Cato o maço de cigarros perdido no meio das cobertas. A sorte é que o isqueiro está sempre dentro da embalagem. Acendo. Tragueio. A densa fumaça preenche meus pulmões e aos poucos me deixa mais acordado. O vento que entra pela janela do décimo sétimo andar bate de cheio no meu rosto, uma brisa que lava a alma. O sol também me visita e deixa seus rastros sobre o chão. Logo mais me fará companhia na cama. Deito e deixo a melodia do cigarro embalar meus pensamentos. Até ali havia sido um cara ambicioso em todos os aspectos, mas hoje, hoje eu não era. Naquele momento em específico eu não era. Estava desprendido de todo e qualquer apego material, sentimental, psicológico, emocional, qualquer que fosse. Só por hoje eu poderia viver para sempre com minhas literaturas, com a boa música, com meu espírito jovem e com o que eu faria de tudo isso. Hoje eu poderia encarar o mundo e dar uma nova face a tudo que vivi até então. Aqui, no meio das cobertas, eu descobria os milhares de Quixotes que vivem em cada uma das Manchas escondidas nos recônditos da minha alma. Meu maior desejo é transformar tudo em poesia, as paredes, os quadros, meu vômito, a cinza do cigarro, os tapetes, enfim, dar um valor literário e poético a cada um desses elementos que me cercam. Dar vida. Imortalizar. Ou não é isso que fizemos todos os dias? Com pessoas, com momentos, com situações? Por que não com coisas triviais, e que da mesma forma, nos rodeiam e nos são importantes? Será ninguém se importa com os pequenos detalhes? Vejam só, G.H se apaixonou pela barata. E eu? Eu me apaixono pelo trivial, pelo que é impalpável, pelo surreal, pelo abstrato, pelo valioso tesouro que encontramos, ou melhor, que enxergamos nas coisas simples. Seria egoísmo demais ignorar isso. Agora, o sol vem deitar comigo. Começa a lamber-me os pés e num movimento erótico sobe e debruça-se com toda violência sobre mim. O calor me faz bem. Traz-me a memória uma sensação que há muito eu havia esquecido. Não sei direito que espécie de prazer é esse, mas está ligado ao cheiro de alguma fruta ou flor, que ainda não consigo lembrar. O cheiro ainda ronda meus pensamentos, mas não o defino. Deixo-me envolver. As boas memórias sempre estão atreladas a um cheiro. Cheiro de mãe, cheiro de avó, cheiro de fulano. Nesse embalo entrego-me às memórias. Um rio escondido no meio do mato, lages, água fria, calor intenso, o sol tentando brechas por entre as copas altas das árvores, mulheres cansadas e felizes esfregando roupa e cantando. O canto dos pássaros... a infância roubada pelo tempo. Uma caixinha de música com a mais linda das melodias que abruptamente se fecha e para sempre cessa sua canção. Assim acontece com a vida. Essa vida louca que nos arrebata, que nos escolhe, que nos prova, que nos chama pra briga do cotidiano, que faz provar quem dentre nós é o melhor. Essa vida que me escolheu para contá-la, observando-a de vários prismas, que me presenteou com tamanha sensibilidade, que me fez perspicaz e que me faz mutar todo dia de alguma maneira. Hoje eu me reinvento assim, transformando tudo à minha volta em letras, em símbolos, em gestos, em arte. Hoje eu me transporto desse mundo e viro música, viro dança, viro movimento. Eu não quero sair daqui, quero ficar pra sempre arte. Quero atuar no palco da vida, longe das convenções, dos apegos. Quero vestir o figurino da imaginação e maquiar-me com as cores dos sorrisos. Só hoje, mas para sempre. Quero de uma vez por todas entender qual é o propósito maior, o que verdadeiramente significa viver, e com isso transpor os muros que existem nessa cidade e encontrar o lugar que me é destinado. Hoje eu preciso viver em paz com a minha arte. Hoje eu vou abraçar o sol e beijar os lábios do vento, mais tarde farei amor com a noite e de madrugada dormirei ao lado da lua. Hoje eu me tornei arte. 

domingo, 13 de julho de 2014

UM BEIJO, O CÁLICE DE MORTE (ENSAIO PARA VIVALDI)



Um pedaço de papel. Pouco espaço eu tinha para escrever. A bela canção vinha da sala contígua. Podia sentir a presença de Vivaldi comandando a orquestra. As paredes marrons e mal iluminadas – uma luz amarela-pálida que escorria dos candelabros, debruçava-se sobre a mesa. Meus olhos que contemplavam aquele conjunto sorriam à lembrança do beijo. Havia sido tão breve, mas ao mesmo tempo violento, colérico, ameaçador. Uma faca que transpassara minha garganta, uma navalha que partia-me os lábios, repartia-me a língua. Ácido, pegajoso, denso, amargo de. Agressão, sofreguidão, urgência, de quero-mais. A saliva, um veneno morno, voraz, que suga a vida, resseca as veias, obstrui os poros, a respiração. Vivaldi e seus violinos, cordas que se roçam, bocas que se beijam, olhos que se fecham. O papel ainda em branco, um selo dourado no canto e um recado a ser escrito. Palavras – torpes, nostálgicas, vagas e hesitantes – marejadas de sentimentalidades. Com a caligrafia irregular, imerso em recordações, chamas de um beijo, arrisquei:

“O pior dos venenos é aquele que não se prova. O melhor beijo, aquele que se rouba. Destila-me tua peçonha, suga-me a boca, mata-me aos poucos. Do pior eu provei. Morri por você. Para todo sempre, desde agora.”


Beijei sutilmente a folha. Assinei. O cálice ao lado, vermelho carmim, erótico, carregado de furor, mirava-me. Ainda trêmulo, bebi de um só gole. A sonata, Vivaldi e os violinos, o piano, a bela música, o torpor, um carpe vermelho feito rosa que desabrocha, a primavera, o torpor, o crepúsculo, os espasmos. Uma luz que morria – um sopro invisível, candelabros que cessavam seu ofício. Eu sorri.  

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ENCONTRO DESFEITO







A cidade estava movimentada, o dia frio e nublado debruçava-se sobre a multidão que se apinhava nas calçadas. Eu caminhava de braços dados com minha mãe, que usava uma touca preta e um casacão cinza. O vento cortava feito navalha e eu tentava a todo custo proteger minhas orelhas que estavam prestes a trincar. Nem sei porque aceitei a ideia de sair, mas minha mãe insistiu tanto e não tive como recusar. Na verdade, ela queria uma opinião em mais uma das bobagens que iria comprar. Maldito vício. Eu detestava essas atitudes e insistências dela. Durante o trajeto ela não parava de falar nem se quer por um segundo, e praticamente todas as minhas respostas eram monossilábicas, uma vez que, nem sequer sabia o que estava respondendo. Eu estava numa espécie de transe-traumático-pré-compras. Ao dobrarmos uma esquina ao mesmo tempo que ela me puxava pelo braço e corria na minha frente, tive a impressão que o chão sumia dos meus pés, quando me dei conta do que via passando logo a minha frente. Meu coração parou por um pequeno instante. Não podia ser! Ao volante de uma enorme caminhonete preta, estava literalmente o rosto que rondava minha memória e que havia deixado um enorme vazio em minha vida há quatro anos. Alguém que para sempre, independentemente da distância ou do rumo que nossas vidas tomassem, teria para sempre um papel de destaque em minha memória. Aquele lugar especial que poucos conseguem ter, que é conquistado através do suor das mãos, do coração acelerado, do fôlego sumindo e da utopia criada em cima do amor recíproco, aquele que se evapora feito gás volátil – assim de uma hora pra outra. Larguei o braço de minha mãe e pedi que ela fosse às compras sem mim, pois, eu precisava resolver um problema. Nem deixei ela falar nada e saí correndo no mesmo momento que vi ele estacionar. Ele sabia que eu iria até onde estava e que esse encontro, mais tempo ou menos tempo, aconteceria. De camisa roxa, calça preta, cabelo espetadinho (como eu sempre gostei), e um sorriso lindo no rosto, abriu a porta e virou-se em minha direção. Ao tirar os óculos, meu coração quase fugiu do peito. A minha frente estavam aqueles que foram os causadores de todo o amor que um dia despertou em mim. Não há maior beleza nesse mundo do que aqueles olhos verdes! Lindos e exatamente iguais como da última vez em que eu os vira, me encarando a poucos milímetros do rosto. Ao mesmo tempo que eu achava que tudo não passava de uma peça do destino, ou um acaso dos deuses ou algo que equivalha, o abraço foi inevitável, cheio de saudade, talvez, mais da minha parte, enfim... mas ao mesmo tempo sincero, nostálgico de uma inocência há muito perdida, ferida, sumida. Era impressionante como o cheiro ainda continuava o mesmo, a textura da pele, a forma como nossos rostos se cruzaram, a posição do abraço. O ar não cabia em meus pulmões, havia espaço para tudo, exceto para o ar! Estava ali, grudando em mim, o mundo que eu idealizei um dia e que me pertenceu, mas que hoje, é substrato do passado. Que estava perto e longe anos luz, ao mesmo tempo. Procurei sentir profundamente aquele cheiro que ainda era o mesmo. Por um instante, naquela ânsia da saudade, nos permitimos trocar um carinho mais íntimo, como se só por aquele momento, o mundo houvesse congelado e então ainda nos pertencêssemos. Beijei o seu pescoço por várias vezes e quando nossos rostos ficaram próximos, ensaiamos um beijo que começou e não terminou. Nossos lábios se roçaram, porém o beijo não aconteceu. Por um momento, talvez poucos minutos, revivi no meu peito um sentimento que havia dormido, algo que consegui provar por apenas uma vez e que foi deixado em algum lugar remoto de mim. Foi difícil articular qualquer palavra, a emoção me engasgava. O toque das mãos finas nas minhas, o olhar perdido e arrebatador me desarmavam, eu realmente fiquei sem reação – resquícios de um amor mal curado. O vento soprou algumas folhas em minha direção e a imagem a frente começou a se desmanchar. Um alarme forte soava. A chuva caia sobre um telhado próximo. Vento. Tempo. Horas. Relógio. Despertador. Vida Real. Encontro desfeito. Saudade maior.